Deixe-me te abraçar até que a ponta dos dedos estejam dormentes.
Deixe-me lhe dizer com todas entonações o quanto lhe amo.
Deixe que o beijo que lhe der na nuca estremessa todo teu corpo.
Deixe que os copos sujos de café amargo nos fitem de longe.
Deixe que, ao sair de casa, a chuva molhe tua face.
Deixe que o frio gélido do vento da praia te carregue e conduza teus pensamentos.
Deixe-se estar são.
Deixe-me ser o vão donde cabem todos os seres e todas as palavras entram em sintonia.
Deixe-se.
Deixe-me.
Deixe.
Sara Pautz.
sábado, 5 de novembro de 2011
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
As Luzes
Míope como era, observava por cima dos óculos as luzes da cidade. E ria sozinha ao vê-las. Um tanto quanto abobalhada não concentrava-se no essencial, todavia enxergava além do que meros normais podem ver. "Que atire a primeira pedra o míope que não as acham engraçadas", pensava. Bailam sobre nossos olhos. Rabiscam a escuridão da alma. Estendem-se por traços ora definidos, ora mal passados. Rezam por nosso ser tilintando veredas de energia. Naquela madrugada sombria as luzes brincavam como crianças na imensidão do vácuo. O caminho para casa parecia cada vez mais longo. Seu capuz negro escondia seus olhos míopes da visão de quem quer que seja. Apressou-se. Ouvia ruídos perto de si. As luzes já não lhe apareciam mais. No entanto, ao longe pôde ver a mais linda delas vindo em sua direção seguida de um estouro. Pena que a mesma seria a última a passar diante de seus lindos olhos míopes. Aquela bala perdida encontrara onde se repousar na fria madrugada de domingo.
Pautz.
Pautz.
Voraz
Movimentos contínuos sob a escuridão da noite. Passos ao longe e gritos distantes. O pedestre curioso se atreve a olhar o rapaz em sua jornada. O qual movia os braços em ritmo acelerado como se atacasse uma presa voraz. Seus olhos mais que atentos comiam o ser em sua frente. Ao terminar sentiu-se satisfeito ao ver sua obra-prima grafitada na parede.
Sara Pautz.
Sara Pautz.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Bicho papão
A pequena menina sempre tivera olhos brilhantes e verdes. Seus pés sempre pisaram nus o árido e frio chão. Os bichos papões jamais a tocaram por debaixo de sua cama. Todavia, enquanto seus olhos embaçavam podia ver os contornos de seus desenhos feitos na parede. Obra de arte típica de uma criança de seis anos. A chuva caía lá fora no mesmo ritmo de suas lágrimas O ambiente todo era proposto para um adulto e seus murmúrios em forma de lápis na parede eram seu refúgio na busca de abrigo da infância. Seu coração palpitava desesperadamente e seus ouvidos já não suportavam aquele mal estar. E naquela noite, assim como muitas outras, seu assombro e sua tristeza eram devidos aos seus bichos papões interiores transfigurados na voz embriagada e exaltada daquele a quem ela chamava de herói.
Sara Pautz
Sara Pautz
sábado, 15 de outubro de 2011
Disseram
Disseram-lhe, certa vez, que não se deve ter pressa na prece nem prece na pressa. Que a prosa tem que ter reciprocidade. Que a verdade condena a vaidade de condes e fadas, de traças falsas e afagos de dor. Que o medo é o chão donde o vão reverbera à alma e a sanidade não testemunha a real vontade. Disseram que na vida deve haver uma saída. Que deve existir uma válvula de escape pra tantos enlaces serem refeitos e que há tantos perfeitos no mundo que já não existe mais fundo do poço. Disseram que o moço da cocada passou pela janela de Assis procurando por Capitu. E que tu que lês não sabes quem és. E que meus pés me levarão para perto do vão que não há fundo mas cabe meu mundo.
Sara Pautz.
Sara Pautz.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Repugnância
Viam aquele mendigo sentado no chão do ônibus. Tampavam as narinas para afastar o cheiro. Zombavam. Riam. Porém o que não percebiam era o fato de que aquele desagradável odor era, na verdade, a podridão de suas fétidas e repugnantes almas.
Sara Pautz.
Sara Pautz.
Inundar
Em um mar de profundas ilusões viu-se inundar de pensamentos e pensou estar se afogando. Curvou o rosto para cima e pôde então ver que o chuveiro estava aberto molhando sua pequena face.
Sara Pautz.
Sara Pautz.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
A compra da felicidade
"Compre aqui seu ingresso para o pula-pula", dizia a placa. A criança de olhos brilhantes, boquiaberta mal pôde perceber seus minutos de felicidade sendo comprados. Sorria como se não houvesse amanhã. Gritava. Pulava. Todavia, o que não lhe saía da mente era a ausência. Sua felicidade jamais seria comprada por tão míseros trocados. Queria carinho, afeto, amor... Pais presentes em corpo, mas a alma tão distante da sua. A pequena menina podia notar isso. Seu sorriso se dissipa, desaba a chorar, porém no vai-e-vem dos pulos da mentira ficaram por isso mesmo seus tristes minutos de felicidade comprados.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
sábado, 17 de setembro de 2011
Análise musical de "O mérito e o Monstro"
Parte I: A letra
O Mérito E O Monstro
(O Teatro Mágico)
O metrô parou
O metro aumentou
Tenho medo de termômetro
Tenho medo de altura
Tenho altura de um metro e tanto
Me mato pra não morrer
Minha condição, minha condução
Meu minuto de silêncio
Os meus minutos mal somados
Sadomasoquismo são
Meu trabalho mais que forçado
Morrendo comigo na mão
A maioria das pessoas passa de oito a doze horas por dia
fazendo coisas que não fazem sentido na vida delas
PERMITA-SE! PERMITA-SE!
Pra dilatarmos a alma
Temos que nos desfazer
Pra nos tornarmos imortais
A gente tem que aprender a morrer
Com tudo aquilo que fomos
E tudo aquilo que somos nós
O Mérito E O Monstro
(O Teatro Mágico)
O metrô parou
O metro aumentou
Tenho medo de termômetro
Tenho medo de altura
Tenho altura de um metro e tanto
Me mato pra não morrer
Minha condição, minha condução
Meu minuto de silêncio
Os meus minutos mal somados
Sadomasoquismo são
Meu trabalho mais que forçado
Morrendo comigo na mão
A maioria das pessoas passa de oito a doze horas por dia
fazendo coisas que não fazem sentido na vida delas
PERMITA-SE! PERMITA-SE!
Pra dilatarmos a alma
Temos que nos desfazer
Pra nos tornarmos imortais
A gente tem que aprender a morrer
Com tudo aquilo que fomos
E tudo aquilo que somos nós
Parte II: A música
Parte III: A anánise
Com apenas quatro anos de formação, a trupe do Teatro Mágico surge afim de dar vida à poesia, encantando crianças, jovens e adultos de todo o país. No ano de 2008, lança seu segundo álbum: o "2º Ato", com mais "amadurescência" e mais consciência da sociedade que a rodeia. Um belo exemplo dessa nova postura tomada pela trupe é a música "O mérito e o monstro", a qual me ocuparei em analisar neste instante.
Segundo o Dicionário Brasileiro Globo, mérito é: s.m. Merecimento; superioridade; aptidão; valor; capacidade;(Do lat. meritu), e monstro é: s. m. Produção, animal ou vegetal, que aberra da ordem da natureza; ser fantástico, criado pela mitologia ou pela lenda; figura colossal; animal de grandeza desmedida; assombro; prodígio; (fig.) pessoa desnaturada, cruel; adj. (bras.) muito grande; (do lat. monstru).
Em grandes capitais como São Paulo o metrô é um transporte público muito comum, e assim como estar no meio de qualquer aglomeração de pessoas, fazer o mesmo trajeto para trabalhar todos os dias é uma tarefa quase que insuportável. No início da música, o autor diz que o "metrô parou, o metro aumentou", ou seja, enquanto o metrô está em movimento tudo parece muito rápido e pequeno, todavia, ao parar, tudo ao seu redor parece maior. E a partir daí vai fazendo um jogo de palavras, uma aliteração, para enfatizar a situação daquele ser que mecaniza o trabalho, pois vê nele a sua única chance de sobrevivência. "Me mato pra não morrer", é o que diz o autor, referindo-se ao esforço feito por cada um de nós para manter-se vivo dentro da sociedade capitalista. E volta a declarar sua situação ao dizer "minha condição, minha condução", porque ele necessita daquele meio de transporte para construir sua dignidade. No momento em que o metrô pára, na mente do autor faz-se um silêncio, silêncio este até mesmo sepulcral, pois diz "meu minuto de silêncio, meus minutos mal somados sadomasoquismo são". É como se o ditado 'tempo é dinheiro' deixasse de ser apenas uma metáfora e viesse drasticamente para a vida real onde cada minuto perdido (ou mal somado, segundo o autor) fosse sadomasoquismo, como se ele gostasse de sofrer para ter alguns momentos de paz, longe de sua jornada de trabalho retratada em "meu trabalho mais que forçado". E persiste na dor da morte de seus sonhos por ter de se sustentar fazendo o que não lhe agrada. Sendo usado como uma marionete nas mãos desse sistema cruel, os seus sonhos morrem, pois assim o diz "morrendo comigo na mão".
E finaliza com um breve poema de uma significância colossal, que diz: "Pra dilatarmos a alma, temos que nos desfazer. Pra nos tornarmos imortais, a gente tem que aprender a morrer, com aquilo que fomos e com aquilo que somos nós", ou seja, temos que desfazer-nos de nossa vã filosofia egoísta e nos doar a cada dia pois só assim, pouco a pouco, aprenderemos a morrer e deixaremos nosso legado neste pequeno espaço de tempo chamado vida.
Amorosamente,
Sara Pautz.
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